Recuo na taxação da Shein, Shoppe e AliExpress afeta ações de varejistas brasileiras?

Analistas apontam que medida vai continuar tendo impacto negativo na B3

Ações da Magalu caíram 5% no dia do anúncio sobre o recuo da taxação de marketplaces estrangeiros – Foto: Rafael Henrique/SOPA Images/Reuters

A decisão do governo de suspender a cobrança de imposto de importação de produtos abaixo de US$ 50 (cerca de R$ 250) deve afetar os resultados das varejistas brasileiras no longo prazo. De acordo com analistas ouvidos pela Inteligência Financeira, a queda acentuada das ações no dia seguinte ao anúncio já mostra que o mercado prevê mais dificuldades para o setor.


No dia 19 de abril, por exemplo, as ações de varejistas como Magazine Luiza (MGLU3), Via Varejo (VIIA3) e Lojas Renner (LREN3) chegaram a cair 5% cada, em média, em picos do dia.


O temor do mercado é o que, de fato, deve acontecer. Ou seja, aumento cada vez maior da participação das asiáticas nas vendas no Brasil e o enfraquecimento das varejistas locais. A Shein, por exemplo, aumentou só no ano passado 300% suas vendas para o Brasil. Como resultado, o faturamento: R$ 8 bilhões.


Como ficam as empresas e os investidores das varejistas?

“A Sea Ltd, dona da Shopee, por exemplo, informou na última divulgação de resultados para os seus investidores que as vendas para o Brasil vinham melhorando significativamente”, afirma Felipe Pontes, sócio fundador da L4 Capital.


O especialista afirma ainda que “algumas varejistas brasileiras até já contavam com esse aumento do cerco e tributação desse tipo de importação de produtos. Então o plano já foi quase todo por água abaixo”.


De acordo com ele, uma enxurrada de produtos chineses pode ser preocupante para o varejo nacional. Isso porque, “no médio e no longo prazo, se não houver uma reforma tributária que incentive mais o empresariado local, será difícil competir”.


Especialmente com os asiáticos “que eventualmente usam práticas análogas à escravidão e ainda vendem para o Brasil sem pagar os tributos devidos”, complementa.


“Ou seja: eles têm menores custos trabalhistas (prática conhecida como ‘dumping social’), não pagam IPI, ICMS etc., e nem são tributados quando vendem para o Brasil se fazendo passar por pessoas físicas”, diz.


Concorrência desleal

Opinião parecida vem de Rodrigo Cohen, analista CNPI e co-fundador da Escola de Investimentos.


“O governo ter cedido foi um gesto que, para nossas varejistas, é muito ruim. Tanto que as ações delas caíram em bloco depois da notícia”, diz.


Para Rodrigo, taxar os importados é ruim, principalmente para o público de poder aquisitivo menor, que costuma consumir produtos mais baratos.


Contudo, ele diz que “sem taxações, as varejistas brasileiras acabam tendo uma concorrência maior das empresas asiáticas que mandam produtos para cá a preços mais baixos”.


Duelo entre varejo asiático x brasileiro (em números)

Um levantamento feito pela TC Economática a pedido da IF (a tabela está logo abaixo) mostra a diferença de tamanho entre as gigantes asiáticas de varejo e as empresas brasileiras do mesmo setor.


Mesmo após o governo recuar da taxação da Shein e das demais varejistas asiáticas, as dificuldades que as varejistas brasileiras enfrentam são muito maiores que mudar o imposto de importação.


Afinal, os dados mostram que a JingDong (JD), varejista líder na China, teve receita de U$$ 151 bilhões, no ano de 2022. Isto é, cerca de 21 vezes mais que o Magazine Luiza (U$$ 7 bilhões), maior do setor no Brasil.


Aliás, no total, as três principais varejistas chinesas, JD, AliExpress e Shopee (SeaLimited), tiveram receita de U$$ 292,6 bilhões. Por outro lado, as seis maiores brasileiras do setor somaram U$$ 23,6 bilhões, apenas 8% das concorrentes asiáticas.


Mesmo não sendo de capital aberto, a Shein, de Cingapura, de acordo com o Financial Times, teve no ano passado uma receita de U$$ 22 bilhões. Ou seja, 93% dos ganhos das empresas brasileiras.


Para piorar, o abismo vai crescer. Isso porque a previsão de vendas da empresa de Cingapura para 2025 é de chegar à marca de U$$ 60 bilhões.


Embora o levantamento mostre que o percentual das margens líquidas seja parecido, a diferença de volume de receitas ainda é muito desafiadora para as varejistas nacionais.


É o que explica Bruno Bitar, economista e sócio da Ação Brasil Investimentos. “É importante entender que as empresas chinesas estão em uma escala mais de 20 vezes maior que as brasileiras”, diz.


Além disso, outro desafio é quanto à produção. “É possível observar que apesar de estarem com indicadores de margens parecidos, as empresas brasileiras ainda encontram-se atrás, com exceção das Lojas Renner, no quesito de produtividade”, diz.


Taxar as empresas asiáticas é a solução?

Já de acordo com Bruno, a taxação da Shein e suas colegas asiáticas não resolveria o problema da assimetria na concorrência. “É um remédio de dor de cabeça para um problema estrutural maior”, afirma.


Aliás, para ele, “a taxação acarretaria uma certa comodidade perante as empresas nacionais, em principal as grandes varejistas, em um detrimento do consumidor. Assim, dificultando a concorrência para o pequeno comerciário, e gerando ineficiência operacional no longo prazo”.


Além disso, o último estudo da Confederação Nacional da Indústria (CNI) sobre competitividade mostra a China em 4º lugar e o Brasil em 16º, em um ranking de 18 países.


O levantamento leva em consideração aspectos como mercado de trabalho, tributos, estrutura produtiva e ambiente de negócios.


Além disso, Bruno explica que para o Brasil também alcançar “crescimento chinês” precisa passar por mudanças profundas.


“Estas mudanças podem começar pelo investimento prioritário na infraestrutura nacional, aproveitando o potencial hidroviário do país, além do aprimoramento de portos e estradas”, diz.


Ele também cita reformas no modelo tributário. ”Implementação de vantagens fiscais em regiões estratégicas do território nacional, com o intuito de gerar um ambiente propício ao comércio internacional, além de facilitar a entrada de tecnologias estrangeiras nos processos produtivos locais, combinando os recursos naturais brasileiros e a confiabilidade na produção”, comenta.


Taxação e impacto para varejistas brasileiras

Embora a medida de taxação fosse muito aguardada por empresários brasileiros, o resultado financeiro, a curto prazo, não seria tão grande quanto se esperava.


A expectativa é que as vendas das três empresas chinesas no Brasil em 2023 seja de US$ 3 bilhões em 2023, de acordo com Felipe Pontes.


“Se essa receita fosse absorvida por negócios informais e formais, acredito que, dessa forma, poderia ter um impacto de aumento de 2% na receita da Magazine Luiza e 1% na Via/Casas Bahia e Americanas (cada)”, diz.


Outro aspecto que tem sido apontado pelo mercado são as diferenças de preço. Afinal, alguns produtos nos sites das varejistas asiáticas chegam a custar um terço de concorrentes brasileiros. Mesmo com a aplicação da taxa de 60%, muitos itens ainda continuariam a ser mais vantajosos nos sites estrangeiros.


Taxa de juros alta prejudica a concorrência com asiáticas

Desde o início da escalada de juros em meados de 2021, as varejistas brasileiras viram seu valor de mercado derreter na bolsa. Assim, as ações da Magazine Luiza (MGLU3) e Via Varejo (VIIA3) amargam quedas de quase 90%. 


Então, Cristiano Corrêa, Coordenador dos cursos de MBA de Negócios do Ibmec São Paulo, explica que os juros de 13,75% ao ano encurtam o poder de compra dos consumidores. E, portanto, encarecem os custos financeiros das varejistas.


“As margens das brasileiras são próximas até das asiáticas, mas o custo de rolagem da dívida no Brasil está quase que impagável. Há pouco tempo rolava a 4%, 5%; entretanto, hoje está a 12% ou 13%.”, afirma.


Com os últimos dados de inflação mostrando queda, a expectativa é de que o Banco Central comece a reduzir os juros no segundo semestre.


Empresas asiáticas são alvos de denúncias

Empresários brasileiros já tentavam mudar a norma de tributação contra as varejistas asiáticas desde 2022. Por exemplo, uma comitiva liderada pelo dono da Havan, Luciano Hang, acusou AliExpress, Wish, Shein, Shopee e Mercado Livre de praticar “contrabando digital”. Mas as empresas negam as acusações.


De acordo com o empresário, há subfaturamento de notas fiscais, reetiquetamento na Suécia e apenas 2% dos pacotes que chegam na fiscalização alfandegária são checados.


Aliás, o não pagamento de impostos de importação e a tentativa de taxação da Shein e das demais varejistas asiáticas é apenas um das polêmicas que envolvem as varejistas estrangeiras.


Por exemplo, a Shein foi denunciada no ano passado em um documentário da emissora inglesa Channel 4. Assim, a investigação mostrou que alguns trabalhadores chegavam a trabalhar até 18 horas por dia, sem folga.


Por aqui, em 2014 uma consumidora recebeu no Distrito Federal uma encomenda da AliExpress com um pedido de socorro. Uma mensagem em inglês, dizia: “Eu sou escravo. Me ajude”.


Além disso, a Shoppe, empresa de Cingapura, também já foi alvo de denúncias por supostamente implementar a cultura de trabalho chinesa na empresa e até mesmo de racismo. Após o incidente, a empresa disse que investigaria as denúncias.


Taxação da Shein, Shopee, JD e AliExpress é suspensa

A ideia da taxação da Shein, Shopee (Sea Limited), JD e a AliExpress é justificada pelo ministro da Fazenda, Fernando Haddad, como um pedido do presidente Lula para que houvesse um aumento da fiscalização.


Isso porque as empresas asiáticas, de acordo com o governo, se aproveitam de uma portaria de 1999 do Ministério da Fazenda. Essa portaria isenta de imposto de importação o recebimento de produtos no valor de até US$ 50, desde que enviados por pessoa física.


As companhias estariam enviando, portanto, os produtos usando esse recurso, o que é proibido para pessoas jurídicas.


O governo estima, aliás, que 99,5% dos produtos que entram abaixo de US$ 50 são de empresas. Com a prática, as empresas deixam de pagar, no mínimo 60%, de imposto de importação. Assim, o governo perde cerca de R$ 6 bilhões em arrecadação.


Qual é o tamanho das varejistas chinesas?


No estudo da Economática foram consolidados a receita e o lucro em dólares da JD (e-commerce e logística), Alibaba (controladora da Aliexpress) e Sea Ltd (controladora da Shopee). Então, o mesmo foi feito com as empresas brasileiras para efeito de comparação. 


Posteriormente, foi considerado um “único setor” para as empresas brasileiras. Ou seja, foram somadas a receita de Magazine Luiza, Via Varejo, Americanas, Renner, Guararapes (Riachuelo) e C&A, e identificado a participação de cada uma no total. Com esse valor, foram divididas a receita das cias chinesas de US$ 292 bilhões para cada participação das varejistas brasileiras.


Compare:

Nome da varejista asiáticaBalanço  mais recenteMargem Bruta de 2022Margem Líquida de 2022Receita de 2022
Lucro Líquido de 2022 (em dólares)
Jd.Com, Inc.31/12/20228,03%0,93%151.690.000.0001.507.000.000
Alibaba Group Holding Ltd31/12/202236,32%2,71%128.485.000.0005.787.000.000
Sea Limited
(Shopee)
31/12/202241,65%-13,32%12.449.705.000-1.651.421.000
Total292.624.705.0005.642.579.000
Nome da varejista brasileiraBalanço mais recenteMargem Bruta de 12 meses, conforme balanço mais recenteMargem Líquida de 2022Receita de 2022
Lucro Líquido de 2022 (em dólares)
Magazine Luiza31/12/202227,99%-1,34%7.148.552.000-95.631.000
Via31/12/202231,04%-1,11%5.921.766.000-65.546.000
Americanas30/09/202230,68%0,15%5.177.615.0007.933.000
Lojas Renner31/12/202260,17%9,73%2.543.484.000247.562.000
Guararapes31/12/202258,18%0,61%1.621.148.0009.962.000
C&A Modas31/12/202250,23%0,01%1.185.110.000159.000
Total23.597.676.000104.439.000
Fonte: TC Economática

*Inteligência Financeira