Suspense com Morgan Freeman, na Netflix, te manterá hipnotizado no sofá, sem desviar o olhar, por 104 minutos

 Suspense com Morgan Freeman, na Netflix, te manterá hipnotizado no sofá, sem desviar o olhar, por 104 minutos

Alsorsa.News |
Divulgação / Paramount Pictures


Os anjos da guarda dos investigadores dos filmes sobre maníacos tão perversos quanto sanguinários, capazes de se encarniçar de uma pobre vítima pelo simples motivo de tê-la julgado atraente, ou, pelo contrário, achá-la feia demais; invejar-lhe os dotes artísticos; ou por querer que a humanidade expie seus pecados mediante o sacrifício de inocentes (que, claro, não são assim tão puros), devem estar à raia da loucura. Pelo menos o de Alex Cross, o protagonista de “Na Teia da Aranha”, às voltas com um caso especialmente obscuro, justo na hora em que, iludira-se, teria algum sossego. Lee Tamahori brinca com muitos dos espaçosos clichês das produções do gênero tratando de conferir substância dramática à narrativa de James Patterson, autor de romances policiais em que a densidade argumentativa é diretamente proporcional ao alcance mercadológico dessas publicações.


Nos livros de Patterson, assassinos frequentam boates suspeitas, onde conhecem moças cuja bisbilhotice levam-nas ao flerte com o perigo, e, então, a mágica acontece. Tracy, a garota incauta de Jill Teed, é, na verdade, a agente escolhida pelo departamento de polícia do Distrito de Colúmbia para capturar Gary Soneji, o assassino em série que aterroriza as mulheres de Washington, que por sua vez, claro, também socorre-se de uma identidade falsa. Tracy vai com tudo para cima de Jim — e que se louve a autoironia macabra do escritor —, sem dar-se conta do primarismo de seu erro, afinal, bons caçadores que mereçam esse reconhecimento anseiam por encontrar suas presas, não serem surpreendidos por elas. A boa adaptação de Marc Moss leva o público a inferir que Soneji dispõe mesmo do faro privilegiado de bestas selvagens e inclementes, e o desempenho de Michael Wincott é o complemento perfeito à abordagem do roteirista, que condensa no prólogo a essência de bizarria confessa da história. A maneira como o vilão dá cabo da personagem de Teed, fazendo o espectador menos atento a pensar em alguma possível falha de edição, deixando também boquiabertos Saco Marrom e Pássaro Marrom (acho melhor nem imaginar o porquê dos codinomes) e toda a equipe liderada por Cross, dá apenas uma pálida ideia da astúcia do facínora, que experimenta do próprio veneno muito tempo depois, e numa circunstância que arrebata os que creem na bondade nata do homem.


Morgan Freeman comanda o show com a primazia costumeira, mas é impossível não sentir um grande desapontamento ao ver seu escolado psicólogo forense, autor de obras de referência para forças de segurança do mundo inteiro, ser tapado de um jeito tão humilhante. Jezzie Flannigan, a agente do FBI que entra na ocorrência como sua zero dois, parece todo o tempo interessada demais em minudências que Kojak ou Columbo nenhum teriam o poder de capturar a olho nu, mas fica a salvo de seu poderoso radar. Como Wincott, Monica Potter cresce para além das possibilidades do tipo limitado a que dá vida, conservando a trama central em suspenso mesmo quando o longa alcança a reta final, e se conhece, finalmente, quem é o sequestrador de Megan Rose, a filha de um político eminente vivida por Mika Boorem numa performance marcada pela convicção, e por que o faz. Nem todo mundo cai na teia da aranha — muito menos vinte anos depois —, mas dá prazer deparar-se com tantas atuações para muito além do óbvio num filme nascido de um best-seller miseravelmente descartável.


Filme: Na Teia da Aranha

Direção: Lee Tamahori

Ano: 2001

Gêneros: Thriller/Mistério

Nota: 8/10